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sábado, 31 de agosto de 2013

Velha

Sabes aquele dia em que te acordas, te sentes velho, quase decrépito, sem ânimo, pois é, assim estou...
Remoendo lembranças como um bom velho. E aí me veio a memoria, que por vezes me falha e me engana, aquela velha...
Aquela velha, quantos sentimentos pode despertar só de olhar. Ela com aquele cabelo branco, com o penteado "amassado de travesseiro", este denuncia todos os redemunhos daquela cabeça. Já se viu! Uma velha de calças e vestido por cima! E aqueles olhos lá no fundo, ressaltando os ossos das maças do rosto, aquela boca fina que sibila enérgica para fazer reclamações de tudo e de todos, suas incontáveis queixas, seu entusiamos em dizer a todos que já passara a muito dos 90... Olha! Olha e verás como ela é... Quantas dores, está sempre com os dias contados...mas não se cansa de pedir panquecas no jantar, burlando qualquer problema estomacal que tenha anunciado em seu rosário de dores e doenças crônicas. 
Roupas tão estampadas, cores, cores, nada combina naquela magreza sem fim, estás vendo a cara? Aposto que vai falar mal de alguém, provável que seja reclamar do barulho que os jovens vizinhos fazem na esquina. Talvez estivesse lançando moda nos dias de hoje com seu estilo retrô-florido-recatado, sim né, mulher que se preze não sai de calças sem um vestido por cima!
Tens medo dela? Posso estar exagerando...talvez um olhar muito infantil. Mas aquela casa de esquina só com chapisco nas paredes, nenhuma cor, as janelas e a portinha cinza, parece que aquele pátio é um mato só... Não! Não passa as mãos na parede! Vas te lanhar toda a palma!
Te parece cara de caveira? Eu concordo, Cama de molas, colchão esquisito, acho que é de palha e que cheiro de velho sai dali!!O guarda roupas é bonito, tem uma porta com espelho dentro, de madeira boa, bem rebuscado, daqueles que cabem crianças dentro, mas como driblar o olhar reprovador da velha? O marido era carpinteiro, morreu...De quê? de velho oras! Usava tamanco com solado de pneu e quando pisava na cola do gato...era um escarcéu! Parece que ele veio de Portugal para trabalhar na construção da ponte e casou com essa velha meio castelhana, só não sei se era de Río Branco, não sei. 
É! talvez ela seja assim por isso. Imagina! De 9 filhos sobrar só uma filha, a mais nova, sete morreram de sabe-se lá o quê, muita pobreza naquela época, não se criavam... sobrou o casalzinho, mas o menino já taludo desembestou de atravessar o rio! Quantos esse rio já levou e ainda vai levar, meu Deus! Olhando assim, por esse lado, olhando bem aquela cara de caveira...Amarga né? Mas...olhasse aquela foto velha na penteadeira? Sim, aquela preta e branca. Ela sentada na cadeira, o buquê sobre as pernas, as mãos juntas, vestido a lá anos 20, pobre, mas mantendo o estilo da época. Ele de pé ao lado dela, um terno, botinas e calças curtas, deixando a mostra as botinas...uma mão sobre o ombro dela, jovens...mas já estavam nos 30, eu acho. Por que expressões tão sérias? Ah! Devia ser costume na época, tinha até aquelas fotos de perfil, como que olhando para o nada... Se ela ainda é viva? Claro! Acho que não morre... pelo menos não na minha memoria...se é que não me falha, não me engana. Aquela velha...já nem sei. Talvez tenha inventado, sabe aquele dia em que te acordas te sentindo velho, quase decrépito?

domingo, 25 de agosto de 2013

Toc toc
Quem é?
Sou eu
Eu?
Sim, tu
Como assim?
Achaste que podias fechar como um livro? Calariam? Como?
Que conversa é essa? Quem é afinal?
Eu, tu, nós, os outros, nosotros. Elas estão te chamando, não ignores és tudo isso. Pensaste que tinham sumido, calado, fugido? Que procura mais besta! Sempre estiveram aqui, ali, aí... como um grito, como um bálsamo, com sentido, sem sentido.
Palavras
Eu sou, tu és

São elas