Hoje acordei triste com
minha própria inconstância de ser, se falo de amor sou piegas e mulherzinha, se
falo da existência sou soberba e arrogante, se falo de passado sou saudosista,
se falo de hoje sou antiquada e ressentida se falo da humanidade sou feminista enrustida.
Falar de quê?
Calar-se para que?
Fingir ser insensível, inatingível. Quem sabe ser compreensiva, permissiva.
Talvez agressiva, não sei. Por que nos projetamos nos outros? Admiro os eremitas,
mas não consigo sê-los.
De que me servem as
palavras se não para tocar alguém? Como é bom atirá-las ao papel como o fazem
as crianças, com tanta força que formam alto relevo nas páginas. Usá-las para
desenhar o mundo e deixar-se usar por elas para entrar no mundo onírico, só com
a pontinha dos dedos dos pés tocando o duro piso da realidade.
Banhar-se num rio de
lágrimas de dor ou de felicidade, tanto faz. Depois secar ao vento do bater de
asas de um passarinho. Entrar no casulo de uma borboleta e sair multicolorida.
Olhar o mundo sob o prisma de uma formiga.
De mansinho, entrar nas
funerárias e deixar todos os caixões sem tampas, sempre, como marcos sem portas,
uma fuga do epitáfio. Dormir em plena luz do dia. Acordar no meio da noite e
sair a caçar estrelas, soprar bem forte para ver se alguma se apaga.
Voar sem freio ou
direção, subindo, subindo como um balão. Sentindo um friozinho na barriga. E quando
os passarinhos forem para os ninhos, as abelhas para a colmeia, o sol para o
outro lado do mundo, eu vou descendo, bem devagarinho até cair em um livro escancarado
no meio. Depois de fechado, me restará apenas o desejo de que um dia ele volte
a ser aberto.
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