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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

36º A palavra de hoje: abra


Hoje acordei triste com minha própria inconstância de ser, se falo de amor sou piegas e mulherzinha, se falo da existência sou soberba e arrogante, se falo de passado sou saudosista, se falo de hoje sou antiquada e ressentida  se falo da humanidade sou feminista enrustida. Falar de quê?
Calar-se para que? Fingir ser insensível, inatingível. Quem sabe ser compreensiva, permissiva. Talvez agressiva, não sei. Por que nos projetamos nos outros? Admiro os eremitas, mas não consigo sê-los.  
De que me servem as palavras se não para tocar alguém? Como é bom atirá-las ao papel como o fazem as crianças, com tanta força que formam alto relevo nas páginas. Usá-las para desenhar o mundo e deixar-se usar por elas para entrar no mundo onírico, só com a pontinha dos dedos dos pés tocando o duro piso da realidade.
Banhar-se num rio de lágrimas de dor ou de felicidade, tanto faz. Depois secar ao vento do bater de asas de um passarinho. Entrar no casulo de uma borboleta e sair multicolorida. Olhar o mundo sob o prisma de uma formiga.
De mansinho, entrar nas funerárias e deixar todos os caixões sem tampas, sempre, como marcos sem portas, uma fuga do epitáfio. Dormir em plena luz do dia. Acordar no meio da noite e sair a caçar estrelas, soprar bem forte para ver se alguma se apaga.
Voar sem freio ou direção, subindo, subindo como um balão. Sentindo um friozinho na barriga. E quando os passarinhos forem para os ninhos, as abelhas para a colmeia, o sol para o outro lado do mundo, eu vou descendo, bem devagarinho até cair em um livro escancarado no meio. Depois de fechado, me restará apenas o desejo de que um dia ele volte a ser aberto.

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